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Por que estudar a distribuição dos répteis e anfíbios?

Você já deve ter lido em alguma revista ou jornal que o Brasil é conhecido mundialmente por ser um país mega biodiverso, isto é, seu território abriga uma das maiores riquezas de espécies de plantas, animais e fungos do mundo! Mas você já parou pra refletir como os cientistas podem fazer essas afirmações? Neste caso, é preciso saber em qual país cada espécie ocorre. E em seguida contabilizar quantas dessas espécies ocorre em cada país, ou seja, a riqueza de espécies em cada um deles. Assim, dizer que o Brasil é um país mega biodiverso carrega consigo uma tarefa de levantamento de todas as espécies descritas e mapeamento da distribuição de todas elas. Uma enorme trabalheira que está longe de ser algo trivial…

Foi para falar sobre questões que envolvem a distribuição das espécies que o herpeto.org me convidou para dar as caras por aqui. Antes de iniciar, gostaria de me apresentar: sou a Thaís Guedes. Desde criança sou fascinada por répteis e anfíbios, mas especialmente, sou uma amante das serpentes! No meu doutorado, no Instituto Butantan, resolvi estudar quais eram as espécies de serpentes do bioma Caatinga e como elas estavam distribuídas nesta região árida localizada no nordeste do Brasil. Desde então, me encantei também pelo estudo da distribuição das espécies e das inúmeras informações que podem emergir dos mapas. Atualmente, sou pesquisadora associada ao Gothenburg Global Biodiversity Center na Suécia e consegui integrar minhas duas paixões científicas. Nos meus estudos tento elucidar questões relacionadas a evolução da distribuição da biodiversidade Neotropical usando serpentes como modelo.

Voltando a falar de distribuição, os organismos não ocorrem em uma determinada área por puro acaso, eles apresentam padrões de distribuição geográfica bastante particulares. A área da biologia que estuda a distribuição das espécies é a biogeografia. E ela vai muito além dos mapas em si. Ela nos dá oportunidade de contar uma história de como vários eventos de mudanças na paisagem ao longo do tempo atuaram moldando a distribuição das espécies e resultando no que vemos atualmente expresso nos mapas; e que poderão mudar no futuro, em virtude do aquecimento global. É uma disciplina bastante complexa e que anda de mãos dadas com diversas áreas da biologia, geologia, paleontologia, etc, para reconstruir o gigante quebra-cabeça que é conhecer a evolução da biodiversidade no espaço e no tempo: a biogeografia é trans-disciplinar!

Escolhi estudar biogeografia das serpentes por se tratar do grupo mais rico de répteis, com cerca de 3.500 espécies. Elas ocorrem em ambientes temperados, tropicais, desertos, na terra, no mar e na água doce. Esses animais tem papel importante nos sistemas naturais e, embora as cobras estejam entre os grupos mais incompreendidos e perseguidos de todos os animais, podem sim ser usados como excelentes modelos para investigar processos biogeográficos.

  • +Legenda

    Mapa mostrando várias ecorregiões Netropicais juntamente com espécies de serpentes representativas de algumas dessas áreas:
    1.1 Boa constrictor,
    1.2 Oxybelis aeneus,
    1.3 Philodryas argentea,
    1.4 Rhinobothryum lentiginosum,
    1.5 Eunectes murinus,
    1.6 Siphlophis compressus,
    1.7 Amerotyphlops reticulatus,
    1.8 Lachesis muta;
    1.9 Imantodes cenchoa,
    1.10 Apostolepis flavotorquata,
    1.11 Bothrops lutzi,
    1.12 Micrurus frontalis,
    1.13 Erythrolamprus typhlus,
    1.14 Phalotris lativittatus,
    1.15 Xenopholis undulatus,
    1.16 Oxyrhopus rhombifer,
    1.17 Rhachidelus brazili,
    1.18 Psomophis genimaculatus,
    1.19 Philodryas baroni,
    1.20 Phimophis vittatus,
    1.21 Corallus caninus,
    1.22 Anilius scytale,
    1.23 Amerotyphlops brongersmianus,
    1.24 Erythrolamprus viridis,
    1.25 Thamnodynastes phoenix,
    1.26 Bothrops erythromelas,
    1.27 Atractus maculatus,
    1.28 Chironius bicarinatus,
    1.29 Tropidodryas striaticeps,
    1.30 Liotyphlops beui,
    1.31 Oxyrhopus guibei,
    1.32 Dipsas albifrons,
    1.33 Bothrops jararaca,
    1.34 Corallus hortulanus,
    1.35 Erythrolamprus atraventer.

    As abreviações indicam o hábito de cada serpente:
    aquático (Aq), arbóreo (Ar), fossorial (F) e terrestre (T).

    (Fonte da imagem: DOI: 10.1111/geb.12679).

Ei herpetólogo, não pare a leitura ainda! Afinal, não é só biogeográfo que está de olho nos mapas. Na verdade, se você prestar atenção, mapas de distribuição das espécies estão por toda parte… são utilizados em todas as áreas da herpetologia (veja abaixo). Por isso, independente da área de interesse na herpetologia, vale a pena saber noções básicas sobre a importância e como coletar dados de distribuição.

  • Taxonomia/Sistemática: informações de distribuição e/ou mapas estão presentes em trabalhos de descrição de novas espécies e na apresentação de novos arranjos sistemáticos;
  • Reprodução animal: em uma região tão ampla e de clima variado como a região Neotropical uma mesma espécie, se amplamente distribuida, pode apresentar estratégias reprodutivas distintas de acordo com os climas e ambientes que ocupam;
  • Filogeografia: mapas ajudam a entender como espécies que são amplamente distribuídas podem estar estruturadas em populações distintas;
  • Modelagem de nicho: dados de distribuição podem ser usados como base para entendermos os requisitos climáticos necessários para um espécie ocorrer em uma determinada área, e assim, podemos calcular onde ela pode potencialmente existir mas ainda não foi documentada;
  • Conservação: mapear a diversidade e também suas ameaças nos permite indicar áreas prioritárias para conservação.

Se você gostou desse assunto, continue acompanhando o herpeto.org. Vou aparecer mais vezes aqui para continuarmos esse papo de distribuição da herpetofauna. Se tiver dúvidas sobre esse assunto, escreve pra gente! Quem sabe ela não vira tema de um post?

Abraços e até a próxima 😉

SAIU DO FORNO, MAS NÃO SAIU DO TEMA!
(Dica de leitura)

Os herpetólogos Pedro Simões, Fernando Rojas-Runjaic, Giussepe Gagliardi-Urrutia & Santiago Castroviejo-Fisher acabaram de publicar que as espécies de sapinhos Boana hobbsi, Osteocephalus deridens, Tepuihyla shushupe, Ranitomeya defleri e R. variabilis, têm registro confirmado no Brasil; ocorrem na Estação Ecológica Juami-Japurá no estado do Amazonas. Essas espécies eram antes conhecidas apenas para nossos vizinhos Perú, Colombia e Equador. Põe cinco pontos pra conta do Brasil! Além do mapa, os autores também disponibilizam dados sobre a morfologia, canto e história natural … além de fotos lindinhas das cinco espécies.

Vale a pena conferir!

Link acesso: https://biotaxa.org/hn/article/view/40092/38759

 

Conheça mais nossa colunista Thaís Guedes:

www.tbguedes.comResearchgate | Ig @thaisbguedes

Thaís Guedes

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