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A convite do herpeto.org dou início hoje à minha coluna “Herpetofauna Brasil afora”. Aqui, vamos participar juntos de uma jornada para conhecer a beleza inigualável da herpetofauna do Brasil. Viajaremos de Norte a Sul / Leste a Oeste do país mostrando um pouco da diversidade e particularidades da fauna de répteis e anfíbios do nosso “Brasilzão”! Quero levar você, caro leitor, para um passeio virtual pelos diversos cantos onde tive a sorte e privilégio de visitar em busca de sapos, cobras e lagartos.

Antes de iniciar o nosso passeio, no entanto, preciso contar como é que cheguei até aqui. Meu espírito desde cedo foi de um viajante aventureiro (característica comum à todos na família). Sempre gostei de viajar, principalmente para lugares onde a natureza ainda está bem preservada. Mudei de cidade várias vezes, sempre buscando conhecer novos lugares, pessoas e culturas diferentes. Acho que foi assim – e com a ilusão de que poderia fugir da matemática – que fui parar no curso de Biologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), há uns dez anos atrás. Eu sabia que queria trabalhar com lagartos. As cobras e os sapos vieram depois, com o tempo.

Vieram então os projetos acadêmicos, consultorias ambientais, planos de manejo, expedições de coleta e, muitas vezes, simplesmente férias. Os motivos variaram mas o fato é que a Zoologia me permitiu realizar um dos sonhos de criança. Viajar, viajar e viajar. Nesse ponto é importante dizer que raramente entro na mata sem uma câmera fotográfica. Como fotógrafo, sinto que tenho a obrigação de compartilhar as imagens que capturei – e continuo a juntar – ao longo de uma década de buscas por bichos nas florestas e brejos do mundo. É com esse objetivo em mente que, sem mais delongas, iniciamos o nosso passeio.

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Minha primeira vez no mato como “biólogo” (na verdade ainda como estudante de graduação) foi na belíssima restinga do Parque Estadual Paulo César Vinha (PEPCV), em Guarapari, no litoral do Espírito Santo. Comecei acompanhando minha grande amiga Andressa Gatti, então colega de laboratório na UFES e na época trabalhando com os mamíferos do PEPCV. Em pouco tempo comecei meus próprio projeto através na reserva. Trabalhei no Parque durante quase todo o tempo em que estive na UFES e posso dizer que comecei minha vida herpetológica ali, com as botas cheias de areia quente! Sendo assim, não poderia escolher outro lugar para dar inicio ao “Herpetofauna Brasil afora”.

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Setiba, como é conhecida a região onde se encontra o Parque, está a uns 40 minutos de carro de Vitória, capital do Espírito Santo. O fácil acesso e a beleza estonteante atraem muitos turistas e também pesquisadores e curiosos ao local. O mosaico de áreas abertas e florestas de “mata seca” proporcionam diversos habitats diferentes e consequentemente a diversidade da herpetofauna do PEPCV é impressionante.

Destaque especial vai para a abundância do lagartinho listrado, Ameivula nativo, que pode ser facilmente visto caminhando sobre a areia branca da restinga nas horas mais quentes do dia. A espécie é partenogenética (isso mesmo, só existem fêmeas na população e a reprodução é assexuada), além de ser endêmica das restingas da Bahia e Espírito Santo, sendo por isso considerada ameaçada de extinção devido à degradação do seu habitat. Tenho um carinho todo especial por esse lagartinho, pois fiz minha monografia com a ecologia da espécie (a primeira publicação a gente nunca esquece!).

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Outro morador ilustre do PEPCV é o Melanophryniscus setiba, uma jóia rara que tive o prazer de descobrir e descrever, junto à colegas, durante meu trabalho no Parque. Estudei a biologia do bicho por um tempão, mas nunca encontrei girinos nem desovas… morro de curiosidade pra saber mais sobre a reprodução desse “ET” (a anatomia desse bicho é tão esquisita, que apelidamos ele de “o ET de setiba”– uma mistura de Rhinella, Melanophryniscus e Brachycephalus – bizarro!).

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O Parque conta com uma grande quantidade de bromélias e, consequentemente, espécies que se beneficiam dessas em alguma etapa da vida são especialmente abundantes. Entre elas minhas favoritas são a Phyllodytes luteolus (que passa sua vida quase inteira dentro de bromélias) e a perereca-de-capacete Aparasphenodon brunoi (que usa a parte central das plantas como abrigo contra predadores). É comum também avistar lagartos (Psychosaura macrorhyncha Hemidactylus) ou serpentes (Chironius Thamnodynastes) procurando comida nas bromélias. Outra espécie comum no Parque, além de ser a primeira serpente que coletei e fotografei na vida, é a Corallus hortulanus, espécie comum no Brasil inteiro. Vi várias delas ao longo dos anos em Setiba, de todas as cores e tamanhos. Por ser um bicho tão comum, esquecemos quão belo ele é. O mesmo acontece com Hypsiboas albomarginatus, um dos bichos mais lindos da nossa herpetofauna, mas muitas vezes esquecido por ser considerado “bicho vagabundo”.

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Essas 11 fotografias são uma pequena seleção dentre as centenas de fotos que fiz no PEPCV ao longo dos 3 anos em que trabalhei ali. Espero que sirvam como uma amostra da diversidade e beleza da herpetofauna desse remanescente de restinga inserido na região da Grande Vitória. Assim termino o primeiro post sobre a herpetofauna do Brasil. Recomendo a todos que forem ao Espírito Santo uma passagem pelo PEPCV. Numa simples caminhada na trilha que leva a uma das praias mais belas do Estado é muito provável que vejam um Ameivula nativo perdido pelo caminho.

Saiba mais:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/11/pesquisadores-identificam-nova-especie-de-minissapo-no-es.html

http://digitallibrary.amnh.org/dspace/handle/2246/6394

Conheça o nosso colunista em research.amnh.org/users/ppeloso

 

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Pedro Peloso

Biólogo, fotógrafo e um grande admirador das belezas naturais.

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