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Se você tem mais de 20 anos, com certeza lembra do Chocolate Surpresa, da Nestlé, não é verdade?

Pois é. O responsável pelas fotos de natureza era Luiz Claudio Marigo, que morreu ontem (03 de junho de 2014) vítima de infarto. Morreu após passar uma hora em frente a um instituto referenciado de cardiologia, que, embora estivesse em greve, contava com médicos que não o atenderam, sabe-se lá o motivo.

marigoLuiz Claudio Marigo. Foto/Divulgação.

Ele, que assim como todos nós fotógrafos de vida silvestre, arriscava a vida para encarar predadores, animais peçonhentos e principalmente mosquitos transmissores de doenças letais (sem dúvida, nossos maiores algozes), foi abatido não por isso, mas pelo descaso de um sistema de público de saúde falido e pela controversa justificativa de que, no local, não havia emergência para atendê-lo.

figurinhaÁlbuns de natureza do Chocolate Surpresa, como fotos de LC Marigo

Não será exagero se eu disser que Marigo foi a maior influência brasileira para a fotografia e divulgação de animais silvestres. Foi a minha, quando nem sequer ligava o seu nome aos cartões daquele chocolate. Nunca vamos conseguir mensurar o impacto que aqueles cartões geraram. Enquanto TV’s, quando muito, divulgavam imagens de natureza em horários pouco nobres e revistas, como sempre, eram muito inacessíveis, o Chocolate Surpresa era encontrado desde o maior supermercado à menor banquinha de jornal numa praça do interior. E custava pouco. Seria espetacular se uma proposta como essa voltasse à realidade.

Hypsiboas raniceps. Foto: LC Marigo.Hypsiboas raniceps. Foto: LC Marigo.

Além disso, vale ressaltar todo o restante da obra do fotógrafo. Suas fotos foram vitrine para inúmeros projetos de conservação, inclusive de espécies ameaçadas como a ararinha-azul e o uacari-branco. As unidades de conservação de Mamirauá, onde são realizadas diversas pesquisas de ponta no âmbito ecológico e social devem ao Luiz Claudio suas primeiras imagens de divulgação. Assim como essas, tantas outras que receberam sua visita ilustre. Em uma edição recente da National Geographic, revista para a qual fotograva com frequência, ele nos mostrava a arte abstrata na fotografia de natureza, um exemplo de inovação e qualidade, duas premissas de seu trabalho. Era, além de tudo, um artista. Você confere mais do trabalho dele aqui.

caimanCaiman crocodilus. Foto: LC Marigo.

Particularmente, acho que como formadores de opiniões, independente se somos cientistas, fotógrafos, consultores, pesquisadores, redatores, editores, palestrantes, professores, teríamos que ter o dever (ou pelo menos a vontade) de divulgar Ciência para a sociedade. O Marigo foi o primeiro a ressaltar isso:

Acredito que a qualidade e a beleza das fotografias são essenciais para atrair o olhar das pessoas e conquistar seus corações, aumentando assim o número daqueles que defendem a natureza. Espero que o meu trabalho transmita a mesma alegria e emoção que sinto nos ambientes selvagens e que as minhas fotografias não se transformem apenas em mais um documento do passado.

Luiz Claudio Marigo.

Muito obrigado, Marigo. O que você nos deixa é imensurável.

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Hugo Fernandes-Ferreira

Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB. Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental. Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.

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