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No primeiro post da coluna “Herpetofauna Brasil afora” mostramos um pouco das belezas da restinga do Parque Estadual Paulo Cesar Vinha, Guarapari.  Nesta nova viagem vamos conhecer um pouco da diversidade da esplendida, e criticamente ameaçada, Floresta Atlântica. Saímos do nível do mar até um dos pontos mais altos da região serrana do Espírito Santo. Menos de 100 quilômetros separam a restinga de Setiba da floresta altimontana de Pedra Azul, onde eu e o Herpeto.org levamos vocês esse mês.

A Pedra Azul está situada em uma área típica de Mata Atlântica no município de Domingos Martins, Espírito Santo. Assim como Guarapari a região de Pedra Azul recebe muitos turistas e é famosa pelo seu clima agradável -friozinho no inverno- e pela festa do morango, que é plantado em abundância pelos moradores da região, muitos deles de origem italiana. Mas nem só de queijos, vinhos e morangos vive a Pedra Azul. A fauna da região é belíssima, repleta de espécies endêmicas do bioma Mata Atlântica, muitas delas ameaçadas de extinção, como macacos, preguiças e aves.

Minha pesquisa na região começou meio que por acaso. Meus pais tem uma casinha no pé da Pedra Azul e por isso comecei a andar pelo mato dali com meu irmão, primos e amigos da biologia. Em meados de 2005 comecei a visitar a região mais frequentemente e focado em fazer um inventário da herpetofauna da região. Não demorou e encontrei ali anfíbios raros, como a perereca Dendropsophus ruschii e a rã-do-riacho Megaelosia apuana – ambas na lista de espécies ameaçadas do Espírito Santo. As populações das duas espécies parecem, felizmente, estar relativamente saudáveis em Pedra Azul, visto que em anos consecutivos foi possível encontrar adultos, jovens e girinos, além de desovas e machos cantantes da pererequinha de cor alaranjada que foi batizada em homenagem ao grande naturalista Augusto Ruschi.

Foi em Pedra Azul também que vi e fotografei pela primeira vez diversas espécies, que viriam mais tarde a se tornar cartas marcadas em viagens a outras localidades da Mata Atlântica (Dendropsophus minutus, Leptodactylus latrans, Proceratophrys boiei, Physalaemus cuvieri, Rhinela crucifer, Scinax x-signatus entre muitas outras). Duas belezinhas que encontrei em Pedra Azul e depois nunca mais vi em outro lugar foram duas pererecas do gênero Aplastodiscus (A. arildae e A. cavicola). A primeira é bastante abundante, podendo ser encontrada vocalizando até mesmo nos dias mais frios do inverno, que em Pedra Azul são particularmente gelados. A perereca-flauta, A. cavicola, só encontrei uma vez, caminhando bem próximo ao limite do Parque Estadual da Pedra Azul a poucos metros da nossa casa. Na ocasião estava com minha grande amiga Rachel Montesinos, que acabou por fazer sua monografia com a fauna de anfíbios da região de Pedra Azul.

A observação de répteis em Pedra Azul não é muito fácil, e é preciso um pouco de sorte para encontrar lagartos ou cobras por ali. Exceção, é claro, para o calango Tropidurus torquatus, que triunfa na imensidão de afloramentos rochosos característicos da região. Em algumas de minhas andanças, todavia, tive a sorte de encontrar alguns exemplares de Enyalius perditus. Dentre as serpentes que encontrei em Pedra Azul a mais abundante é de longe a jararaca comum, Bothrops jararaca. Diversas vezes esbarramos em jararacas enquanto buscávamos por sapos na beira dos riachos dentro da mata. Outras cobras que vimos por ali foram Thamnodynastes e Atractus (nem me arrisco a chutar um nome de espécie… dá-lhe grupos de taxonomia complicada!!).

Mesmo após muitas coletas por lá, nunca vi algumas espécies que certamente ocorrem por ali. Espero poder voltar em Pedra Azul o mais breve possível. Tomara que nas próximas vezes tenha a sorte de ver por ali o lagarto-listrado Diplogossus fasciatus e a perereca-marsupial Flectonotus fissilis, dois dos moradores da região que eu nunca tive a sorte de observar na natureza. Você, prezado leitor, se for sapear por Pedra Azul quem sabe não dá mais sorte do que eu e encontra por lá alguma dessas belezinhas que me escaparam ao olhar.

Saiba mais: Os anfíbios de Pedra Azul: Montesinos et al (2012).

Pedro Peloso é biólogo, fotógrafo e um grande admirador das belezas naturais. Atualmente é aluno de doutorado em Biologia Comparativa no American Museum of Natural History, em Nova Iorque.

Conheça o nosso colunista em research.amnh.org/users/ppeloso

Aplastodiscus_cavicola_Peloso__pedazul_05_herpetorg

A espécie Aplastodicsus cavicola recebe o apelido de perereca-flauta pelo fato de o seu canto se assemelhar ao som de uma flauta.

Dendropsophus_ruschii_Peloso__pedazul_02_herpetorg

A perereca Dendropsophus ruschii foi descrita da região de Domingos Martins, Espírito Santo. Em Pedra Azul, pode ser encontrada na beira de riachos no interior da mata.

Megaelosia_apuana_Peloso__pedazul_10_herpetorg

A rã Megaelosia apuana é relativamente abundante em Pedra Azul mas está ameaçada de extinção, devido a sua pequena distribuição geográfica e destruição do seu habitat natural.

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Os pequenos riachos de Pedra Azul reservam diversas surpresas para os visitantes do Parque. Entre elas diversas espécies de anfíbios e répteis.

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Os remanescentes florestais de Pedra Azul são habitat de uma grande diversidade de espécies de anfíbios e répteis, incluindo algumas formas raras ou ameaçadas de extinção.

Scinax_kautskyi_Peloso__pedazul_07_herpetorg

Essa bela espécie, Scinax kautskyi, recebeu seu nome em homenagem a um ilustre morador do Espírito Santo, Roberto Kautsky.

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Os paredões rochosos e úmidos da região de Pedra Azul são ideais para o desenvolvimento dos girinos da rã Thoropa miliaris. 

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O canto da Aplastodiscus arildae pode ser ouvido durante o ano inteiro no interior da Mata Atlântica da região de Pedra Azul.

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Pedro Peloso

Biólogo, fotógrafo e um grande admirador das belezas naturais.

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