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Estimados leitores do herpeto.org, chegou 2014 e com ele inicio minhas postagens sobre a ecologia e história natural dos lagartos brasileiros. A partir de agora, a cada mês, apresentarei uma nova espécie, fornecendo noções básicas sobre a sua biologia, tais como atributos morfológicos, distribuição geográfica, hábitos alimentares, período de atividade, uso do habitat, aspectos comportamentais, dados reprodutivos, bem como outras informações e curiosidades.

Este texto, na verdade, foi escrito em homenagem a um grande guru da ecologia de lagartos no Brasil, um pesquisador a quem eu devo muito do que aprendi e que respeitosamente eu me refiro como Sensei Galdino! Com mestrado, doutorado e diversas publicações sobre a espécie que intitula esta postagem, o prof. Conrado Galdino é um dos maiores conhecedores deste lagarto e foi justamente através dele que eu conheci o belíssimo Eurolophosaurus nanuzae (Figura 1).


Figura 1. Aspecto geral de um Eurolophosaurus nanuzae.

A referida espécie foi descrita em 1981 como um Tropidurus, mesmo divergindo claramente da morfologia dos demais membros do gênero (Rodrigues, 1981). Contudo, em 2001, a espécie foi remanejada para o novo gênero Eurolophosaurus (Frost, 2001), que significa lagarto (saurus) da cordilheira (lopho) do leste (euro), fazendo referência à distribuição geográfica da espécie, que é endêmica da cadeia de montanhas do Espinhaço, em Minas Gerais.

Eurolophosaurus nanuzae é um lagarto de pequeno porte, que raramente alcança tamanhos superiores a 6 cm de comprimento rostro-cloacal (Galdino et al. 2003). Outra característica marcante em sua morfologia é a presença de uma crista dorsal de escamas imbricadas (Rodrigues, 1981), que juntamente com sua distribuição geográfica, fazem jus ao trocadilho do título deste texto. Explicando, “no Espinhaço” (com inicial maiúscula) se refere à cadeia de montanhas, enquanto “no espinhaço” (com inicial minúscula) se refere ao dorso do animal (Figura 2).

Figura 2. Detalhe para a crista dorsal de Eurolophosaurus nanuzae.

A espécie apresenta hábitos saxícolas, atividade diurna e relativamente elevada abundância local (Filogonio et al., 2010), sendo um lagarto comumente encontrado acima dos 900 m de altitude, nos afloramentos rochosos dos Campos Rupestres. Entretanto, devido à sua endemicidade e à crescente perda e fragmentação do seu habitat, E. nanuzae foi categorizado como uma espécie “Quase Ameaçada” pela IUCN (Morato, 2010).

Este pequeno lagarto se alimenta principalmente de formigas e cupins (Kiefer, 1998) e se reproduz sazonalmente, com pico reprodutivo coincidindo com os meses de mais chuvosos (Galdino et al. 2003). As fêmeas põem de um a três ovos, embora a maioria produza ninhadas com dois ovos (Galdino & Van Sluys, 2011). A espécie tem na cripticidade sua estratégia primária para evitar predadores, mas apresenta um complexo repertório antipredatório (Galdino et al. 2006), inclusive exibindo tanatose (Galdino & Pereira, 2002). Recentemente, o comportamento de cópula foi descrito em detalhes, evidenciando que os machos mordem as fêmeas durante o ato copulatório e demonstrando inclusive a ocorrência de cópulas forçadas (Ventura et al, 2013).

Próximo mês tem mais, simbora calangar!!!

  • +Referências Bibliográficas

    Galdino, C. A. B.; Assis, V. B.; kiefer, M. C. & Van Sluys, M. 2003. Reproduction and fat body cycle of Eurolophosaurus nanuzae (Sauria; Tropiduridae) from a seasonal montane habitat of southeastern Brazil. Journal of Herpetology, 37:687-694.Galdino, C. A. B. & Pereira, E. G. 2002. Tropidurus nanuzae (NCN). Death Feigning. Herpetological Review, 33:54.Galdino, C. A. B.; Pereira, E. G.; Fontes, A. F. &Van Sluys, M. 2006. Defense behavior and tail loss in the endemic lizard Eurolophosaurus nanuzae (Squamata: Tropiduridae) from southeastern Brazil. Phyllomedusa, 5:25-30.

    Galdino, C. A. B. & Van Sluys, M. 2011. Clutch size in the small-sized lizard Eurolophosaurus nanuzae (Tropiduridae): does it vary along the geographic distribution of the species? Iheringia Série Zoologia, 101:61-64.

    Filogonio, R.; Lama, F. S. D.; Machado, L. L.; Drumond, M.; Zanon, I.; Mezzetti, N. A. & Galdino, C. A. B. 2010. Daily activity and microhabitat use of sympatric lizards from Serra do Cipó, southeastern Brazil. Iheringia Série Zoologia, 100:336-340.

    Frost, D. R.; Rodrigues, M. T.; Grant, T.; & Titus, T. A. 2001. Phylogenetics of the lizard genus Tropidurus (Squamata: Tropiduridae: Tropidurinae): direct optimization, descriptive efficiency, and sensitivity analysis of congruence between molecular data and morphology. Molecular Phylogenetics and Evolution, 21: 352-371.

    Kiefer, M. C. 1998. Dieta, modo de forrageamento e uso de microhabitat em duas espécies simpátricas de Tropidurus (Sauria: Tropiduridae) na Serra do Cipó, Minas Gerais. Dissertação. Universidade Estadual Paulista.

    Morato, S. A. A. 2010. Eurolophosaurus nanuzae. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2. <www.iucnredlist.org>. Downloaded on 20 January 2014.

    Rodrigues, M. T. 1981. Uma nova espécie de Tropidurus do Brasil (Sauria, Iguanidae). Papeis Avulsos de Zoologia, 34: 145-149.

    Ventura, S. P. R.; Galdino, C. A. B. & Young, R. J. 2013. Eurolophosaurus nanuzae (Calango): Courtship and Copulation. Herpetological Bulletin, 124:25.

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Daniel Passos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre e doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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