Blog

Nesta postagem apresento aos leitores do herpeto.org uma das maravilhas escamosas da Mata Atlântica, o lagarto “Papa-vento”, Enyalius brasiliensis (Figura 1). Conheci esta espécie há pouco tempo, durante minhas experiências nas florestas do Rio de Janeiro, mas me fascinei tanto por sua beleza, que decidi compartilhar com os leitores do herpeto.org um pouco mais sobre a história natural desse lagarto maravilhoso!

Figura 1. Aspecto geral de um Enyalius brasiliensis.

O gênero Enyalius compreende nove espécies de lagartos típicos de florestas. A maioria das espécies ocorre na Mata Atlântica brasileira (Rodrigues et al., 2006), embora algumas ocorram em outros ambientes florestados, como na Floresta Amazônica (e.g. E. leechii; Vitt et al., 1996) e nos brejos-de-altitude da Caatinga (e.g. E. bibronii; Borges-Nojosa & Caramaschi, 2004).

A espécie alvo deste texto, E. brasiliensis (Lesson, 1828), distribui-se ao longo dos remanescentes florestais de Mata Atlântica, desde o Espírito Santo até Santa Catarina, embora a maioria dos registros se concentre no estado do Rio de Janeiro (Barreto-Lima, 2012). Este lagarto apresenta atividade diurna, hábitos semiarborícolas e dieta primariamente composta por artrópodes (Van Sluys et al., 2004; Teixeira et al., 2006).

Fig2_DanielPassos

Figura 2. Macho adulto de Enyalius brasiliensis.

Enyalius brasiliensis é uma espécie ovípara, pondo de 5 a 14 ovos por ninhada, e o número de ovos está relacionado positivamente com o tamanho das fêmeas (Van Sluys et al., 2004; Teixeira et al., 2006). Esta informação é particularmente interessante, pois pode explicar a ocorrência de fêmeas maiores que machos na espécie, ao contrário do que normalmente ocorre em membros da linhagem Iguania (Fitch, 1981). Outra característica evidente é seu marcado dicromatismo sexual, com os machos sendo uniformemente coloridos de verde (Figura 2), enquanto as fêmeas são marrons e tem manchas no dorso (Rodrigues et al., 2006).

Embora seja uma espécie comumente encontrada em várias localidades, como no Parque Estadual da Ilha Grande, na Reserva Ecológica de Guapiaçu e no Parque Nacional da Tijuca, informações sobre a ecologia de E. brasiliensis ainda são escassas e baseadas em poucas populações (Van Sluys et al., 2004; Teixeira et al., 2006). Portanto, ainda há muito a descobrir sobre ela, simbora calangar!!!

  • +Referências Bibliográficas

    Borges-Nojosa, D. M. & Caramaschi, U. 2004. Composição e análise comparativa da diversidade e afinidades biogeográficas dos lagartos e anfisbenídeos (Squamata) dos brejos nordestinos. In: Ecologia e Conservação da Caatinga. Editora Universitária da UFPE, Recife.

    Barreto-Lima, A. F. 2012. Distribuição, nicho potencial e ecologia morfológica do gênero Enyalius (Squamata: Leiosauridae): testes de hipóteses para lagartos de florestas continentais brasileiras. Tese. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

    Fitch, H. S. 1981. Sexual size differences in reptiles. Miscellaneous Publications of the Museum of Natural History, 70:1-72.

    Rodrigues, M. T.; Freitas, M. A.; Silva, T. F. S. & Bertolotto, C. E. V. 2006. A new species of lizard genus Enyalius (Squamata: Leiosauridae) from the highlands of Chapada Diamantina, state of Bahia, Brazil, with a key to species. Phyllomedusa, 5: 11-24.

    Teixeira, R. L.; Roldi, K. & Vrcibradic, D. 2005. Ecological comparisons between the sympatric lizards Enyalius bilineatus and Enyalius brasiliensis (Iguanidae, Leiosaurinae) from an Atlantic Rain-Forest area in Southeastern Brazil. Journal of Herpetology, 39:504-509.

    Van Sluys, M.; Ferreira, V. M. & Rocha, C. F. D. 2004. Natural history of the lizard Enyalius brasiliensis (Lesson, 1828) (Leiosauridae) from an Atlantic Forest of southeastern Brazil. Brazilian Journal of Biology, 64:353–356

    Vitt, L. J.; Ávila-Pires, T. C. S. & Zani, P. 1996. Observations on the ecology of the rare Amazonian lizard Enyalius leechii (Polychrotidae). Herpetological Natural History, 4:77-82.

  •  

Daniel Passos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre e doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Comentários

O que achou da postagem?