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As serpentes, desde os primórdios da humanidade, são alocadas em lendas, mitos, fábulas e crenças dos mais variados grupos étnicos e religiosos em todo o mundo e, possivelmente, é o representante do Reino Animal mais relacionado a esses tipos de relatos (Morris & Morris 1965; Oliver 1968; Greene 1997; Andreu 2000). Elas excitam a imaginação humana mais do que qualquer outro grupo animal e são relacionadas com o mais variado leque de fatores, como medo, coragem, respeito, gratidão, poder, virilidade, criação, destruição, sorte, azar, cura, bondade, maldade, entre outros (Oliver 1968).

No entanto, o sentimento de temor natural do ser humano, ao deparar-se com um ofídio, é de fato o mais representativo dentre essa relação. Wilson (1984) afirma que a ofidiofobia possa ser inclusive um produto da própria evolução humana. Esse temor pode ser expresso tanto em nível de uma simples postura de defesa, como também em nível de fobias psicopatológicas graves, comuns em todas as regiões do mundo (Smith & Davidson 2007).

Nesse contexto, um dos relatos mais conhecidos em todo o globo, possivelmente o mais influente no Brasil e no Ocidente, é a passagem bíblica cristã, contida no livro de Gênesis, em que uma serpente ludibria Eva, a primeira mulher feita por Deus, para que ela comesse o fruto da árvore proibida, a que lhe possibilitaria o discernimento do bem e do mau.

Apesar da existência de citações sobre serpentes em livros bíblicos como Êxodo e Mateus, relacionando-as com caracteres benévolos e principalmente malévolos, o capítulo três do livro de Gênesis pode ser um dos principais motivos de aversão humana aos ofídios no Ocidente, onde a religião cristã é mais difundida no mundo, pois, desde então, as serpentes estariam condenadas por Deus e pelos seus seguidores à eterna penitência. Com o passar dos anos, a correlação entre esses animais e a transgressão dos valores divinos, incluindo o paralelismo com a figura antagônica do Demônio, foi inevitável (Morris & Morris 1989; Frederico 2003).

Vizotto (2003) descreve, em um levantamento etnográfico sobre mitos, crenças e lendas sobre ofídios de diversas partes do mundo, dezenas de relatos provenientes das Mitologias Grega, Maia, Asteca, Incaica, Etrusca, Hindu, Egípcia, Nórdica, Japonesa, Mesopotâmica e das regiões norte, sul e meso-americanas, além de países como Austrália, Nova Guiné, Sumatra, China, Camboja e Borneo. Somadas a isso, 19 lendas típicas do Brasil completam a lista, a maioria da região amazônica, como por exemplo a lenda do Boitatá, cobra-de-fogo que protege as florestas de incêndios, crença possivelmente originada através da reação química do fogo-fátuo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Boitat%C3%A1). Além disso, o autor lista 22 principais crenças populares brasileiras envolvendo assimilações errôneas da população sobre a biologia desses animais. O ambiente sertanejo, segundo o autor, é o principal meio de disseminação dessas crenças. Além disso, diversas produções bibliográficas, científicas e literárias, abordam crenças encontradas no Brasil e no mundo, demonstrando o quanto esse grupo animal é capaz de interferir no imaginário popular, independente da região onde ele ocorra (Vanzolini 1956-1958; Morris & Morris 1965; Oliver 1968; Nomura 1996; Andreu 2000; Marques 2001; Sandrin et al. 2003; Santos-Fita 2008).

O sentimento de aversão justificado pelo risco de letalidade de algumas serpentes, associado ao fato de algumas delas serem potencialmente predadoras de animais domésticos, acaba motivando o abate indiscriminado desses animais em todo o mundo, causando inclusive depleção populacional de algumas espécies em determinadas regiões. Portanto, é de suma importância que a cultura e o folclore local sejam preservados em equilíbrio com os ideais de conservação da natureza. Propostas de educação ambiental devem repassar a noção de que determinadas crenças, apesar de fazerem parte da história oral de um determinado povo, podem e devem ser acompanhadas do rigor científico para desmistificá-las, principalmente quando elas são fatores de fomento à mortandade de centenas de espécies.

*Parte do texto retirada de Fernandes-Ferreira et al. (2011) (http://periodicos.uefs.br/ojs/index.php/sitientibusBiologia/article/download/70/38)

  • +Referências Bibliográficas

    Alves, R.R.N., Pereira-Filho, G.A., Vieira, K.S., Santana, G.G., Vieira, W.L.S. & Almeida, W.O. 2010. Répteis e as populações humanas no Brasil: uma abordagem etnoherpetológica. In: ALVES, R.R.N., Souto, W.M. & Mourão, J.S. (eds.). A Etnozoologia no Brasil: importância, status atual e perspectivas futuras. NUPEEA, Recife.

    Andreu, G.C. 2000. Mytos, Leyendas y Realidades de los Reptiles de Mexico. Ciencia Ergo Sum. 7(3): 286–291.

    Araújo, A.M. 2004. Folclore Nacional I: festas, bailados, mitos e lendas. Martins Fontes, São Paulo.

    Frederico, E.Y. 2003. O inferno são os outros: animais peçonhentos no Brasil Colonial. In: Cardoso, J.L.C., França, F.O.S., Wen, F.H., Malaque, C.M.S. & Haddad-Junior, V. (eds.). Animais Peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Sarvier, São Paulo.

    Greene, H. 1997. Snakes. The Evolution of Mystery in Nature. University of California Press, Berkeleym, Los Angeles, London.

    Morris, R. & Morris, D. 1965. Men and Snakes. Hutchinson, London.

    Nomura, H. 1996. Os répteis no folclore. Coleção Mossoroense, Série “C”, Vol 893. ETFRN-UNED de Mossoró e Secretaria de Educação, Cultura e Desporto do RN, Mossoró.

    Oliver, J.A. 1958. Snakes in fact and fiction. The Macmillian Company, New York.

    Sandrin, M.F.N., Puorto, G. & Nardi, R. 2005. Serpentes e Acidentes Ofídicos: um estudo sobre erros conceituais em livros didáticos. Investigações em Ensino de Ciências 10(3): 281–298.

    Santos-Fita, D. 2008. Cobra é inseto que ofende: classificação etnobiológica, questões sanitárias e conservação na região Serra da Jibóia, Estado da Bahia, Brasil. Dissertação  de Mestrado. Universidade Estadual de Santa Cruz. .

    Smith, M. & Davidson, J. 2007. ‘It Makes My Skin Crawl…’: The Embodiment of Disgust in Phobias of ‘Nature’. Body & Society 12(1): 43–67.

    Vanzolini, P.E. 1956-1958. Notas sobre a Zoologia dos índios Canela. Revista do Museu Paulista 10: 155–171.

    Vizotto, L.D. 2003. Serpentes: lendas, mitos, superstições e crendices. Plêiade, São Paulo.

    Wilson, E.O. 1984. Biophilia. Havard University Press, Cambridge.

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Hugo Fernandes-Ferreira

Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB. Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental. Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.

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