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Conheça as crenças sobre a Lachesis muta, a maior serpente peçonhenta das Américas

A Lachesis muta (Linnaeus, 1766), conhecida principalmente como surucucu, é uma serpente de hábitos noturnos, possui preferência alimentar por pequenos mamíferos e vive principalmente em domínios florestais úmidos da América Central e do Sul (Campbell & Lamar 2004). No Brasil, ocorre principalmente na Amazônia e Mata Atlântica, inclusive nos remanescentes conhecidos como brejos de altitude nordestinos (Borges-Nojosa & Lima-Verde 1999). Também pode ser chamada de pico-de-jaca, surucutinga, surucucu-de-fogo e malha-de-fogo.

É a maior serpente da Família Viperidae, podendo alcançar até 3,5 m de comprimento (Campbell & Lamar 2004). Possui veneno potencialmente letal ao ser humano, de ação primordialmente neurotóxica, inoculado através de grandes presas retráteis localizadas na porção frontal da boca (Málaque & França 2003).

O “currículo” desse animal realmente é capaz de amedrontar o mais corajoso dos homens, o que acaba promovendo o surgimento de uma série de crenças arraigadas na cultura de praticamente todos os povos que vivem em locais onde essa espécie ocorre.

Dentre essas crenças, duas são muito comuns no Brasil (Fernandes-Ferreira et al. 2011). A primeira reza que a surucucu teria o poder de emitir sons melódicos, sinalizando uma previsão pluviométrica ou até mesmo com a intenção de “chamar” chuva, atrair parceiros e afugentar predadores. Em algumas comunidades, acredita-se que quando uma surucucu canta, as outras respondem. Seria mesmo?

Devido à ausência de cordas vocais ou qualquer outra estrutura análoga, essa espécie não consegue emitir sons via oral. Ela sequer tem o poder de expelir ar dos pulmões, como faz a jibóia (Boa constrictor). A única produção sonora realizada por essa espécie é através do batimento contínuo e acelerado da ponta da cauda queratinizada no solo, quando em situação de estresse. Mesmo se o contrário fosse possível, a probabilidade de resposta ao canto seria nula, devido à ausência de estruturas perceptoras de ondas sonoras comum a todas as serpentes.

A origem dessa crença pode estar ligada à assimilação de sons provenientes de outros animais noturnos. Em uma de minhas expedições na Serra de Baturité, remanescente de Mata Atlântica no estado do Ceará, um dos mateiros apontou a vocalização de Pulsatrix perspicillata (coruja murucututu) como sendo de L. muta. É óbvio que uma só afirmação não nos permite diagnosticar a origem da crença, mas indica hipóteses plausíveis.

A segunda crença é ainda mais famosa. Povos – indígenas ou não – da Amazônia e Mata Atlântica afirmam que, ao se deparar com uma fogueira ou qualquer objeto incandescente, a surucucu aparece com uma fúria incontrolável e desfere incontáveis botes às chamas a fim de apagá-las, chegando ocasionalmente a morrer carbonizada.

Esse fato realmente pode fazer algum sentido, porém não com todas as características presentes no imaginário popular. Segundo Vizotto (2003), o renomado herpetólogo Dr. Alphonse Hoge, em comunicação pessoal com outros pesquisadores, relatou que, ao ligar os aquecedores da Seção de Herpetologia do Instituto Butantan, observava que “as surucucus perdiam sua docilidade habitual e davam botes contra o vidro, em direção de onde provinha o calor.” As surucucus possuem um par de fossetas loreais, que são escamas modificadas localizadas próximas às narinas e possibilitam a identificação de presas e predadores através da percepção de calor (termorecepção). No caso da surucucu, a capacidade de percepção de variações pode chegar a 0,003ºC.

É importante ressaltar que, apesar do risco ao ser humano, nenhuma serpente ataca gratuitamente. Os acidentes ofídicos estão intimamente relacionados à imprudência e ao desconhecimento da vítima ao andar em áreas de mata ou manipular indevidamente os animais. A surucucu corresponde a menos de 3% dos ataques registrados no Brasil e cerca de 1% das vítimas sem tratamento morrem após serem picadas (Melgarejo 2003). Para maiores informações sobre prevenção e primeiros socorros em casos de acidente, consulte o Herpeto.org (http://herpeto.org/picada-de-cobra-o-que-fazer/).

  • +Referências Bibliográficas

    Campbell, J.A. & Lamar, W.W. 2004. The Venomous Reptiles of Western Hemisphere. Vol 2. Cornell University Press, Ithaca and London.

    Borges-Nojosa, D.M. & Lima-Verde, J.S., 1999. Lachesis muta rhombeata. Geographic distribution. Herpetological Review 30 (4): 235

    Fernandes-Ferreira, H., Cruz, R.L., Borges-Nojosa, D.M., Alves, R.R.N. 2011. Crenças associadas a serpentes no Estado do Ceará. Sitientibus série Ciências Biológicas 11(2): 153–163. 2011

    França, F. O. S. & Málaque, C. M. S. 2003. Acidente botrópico. In: Cardoso, J.L.C., França, F.O.S., Wen, F.H., Malaque, C.M.S. & Haddad-Junior, V. (eds.). Animais Peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Sarvier, São Paulo.

    Melgarejo, A. R. 2003. Serpentes Peçonhentas do Brasil. Cardoso, J.L.C., França, F.O.S., Wen, F.H., Malaque, C.M.S. & Haddad-Junior, V. (eds.). Animais Peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. Sarvier, São Paulo

    Vizotto, L.D. 2003. Serpentes: lendas, mitos, superstições e crendices. Plêiade, São Paulo.

 

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Hugo Fernandes-Ferreira

Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB. Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental. Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.

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