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“Se a cascavel tem cinco anéis no chocalho, é porque ela tem cinco anos”. Quem de nós que anda pelos sertões do Brasil nunca ouviu frase parecida?

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A personagem principal dessa crença é a Crotalus durissus (Linnaeus, 1758), serpente da Família Viperidae, que pode chegar a 2,0 m de comprimento, alimenta-se preferencialmente de pequenos mamíferos, possui dentição solenóglifa e, portanto, potencialmente letal ao ser humano (Campbell & Lamar 2004, Vanzolini et al. 1980). Bem distribuída no continente americano, onde habita primordialmente áreas abertas (Klauber 1972, Vanzolini et al. 1980), é figura comum no imaginário popular sertanejo (Fernandes-Ferreira et al. 2011), como mostra o exemplo de hoje aqui no Herpeto.org.

O surgimento dessa crença, que por sinal é bastante comum em toda a América (Andreu 2000; Vizotto 2003; Sandrin et al. 2005), pode ser explicado através da relação que o sertanejo faz entre o tamanho da serpente e o número de anéis do chocalho, que realmente é diretamente proporcional e dependente de fatores temporais.

Porém, a formação de cada anel se dá através da deposição de segmentos de queratina na extremidade da cauda, a cada ecdise, caracterizada pelo fenômeno da troca da camada tegumentar, a qual normalmente se desprende de uma região proximal dos lábios, prossegue liberando-se da placa córnea e avança, através de fricção com superfícies ásperas, desvencilhando-se da pele até a cauda (Klauber 1972).

Para a cascavel, a ecdise pode ocorrer entre duas a quatro vezes por ano, dependendo da disponibilidade de alimento e de fatores ambientais e, além disso, é possível que o chocalho quebre ao se chocar com materiais mais resistentes (Sandrin et al. 2005).

Em suma, podemos dizer que quanto maior as taxas de alimentação e a estabilidade ambiental do habitat, maior será a probabilidade da cascavel realizar várias ecdises ao ano e, por consequência, obter mais anéis de chocalho. Outro fator interessante é que, quanto mais jovem for o indivíduo, maior será sua taxa de crescimento e, por consequencia, maior também será a taxa de ecdises.

Se você conhece mais alguma crença envolvendo répteis e anfíbios comum na sua região e quer vê-la desvendada aqui no Herpeto.org, mande um e-mail para contato@herpeto.org.

  • +Referências Bibliográficas

    Andreu, G.C.2000. Mytos, Leyendas y Realidades de losReptiles de Mexico. Ciencia Ergo Sum.7(3): 286–291.

    Campbell, J.A. & Lamar, W.W. 2004. The Venomous Reptiles of Western Hemisphere.Vol 2.Cornell University Press, Ithaca and London.

    Klauber, L.M.1972. Rattlesnakes.2ª ed. Vol 1 e 2.University of CalifórniaPress, Berkeley e Los Angeles.
    Sandrin, M.F.N., Puorto, G. &Nardi, R.2005. Serpentes e Acidentes Ofídicos: um estudo sobre erros conceituais em livros didáticos. Investigações em Ensino de Ciências10(3): 281–298.

    Vanzolini, P.E., Ramos-Costa, A.M.M. &Vitt, L.J. 1980.Repteis das Caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.

    Vizotto, L.D. 2003. Serpentes: lendas, mitos, superstições e crendices.Plêiade, São Paulo.

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Hugo Fernandes-Ferreira

Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB.
Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental. Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.

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