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O exemplo das cobras que bebem leite. É bem comum do herpetólogo a atitude de corrigir inúmeras crenças e mitos relacionados a répteis e anfíbios. E nós bem sabemos o quanto elas são presentes no imaginário de pessoas dos mais diversos locais do país e do mundo. Sabemos pontuar que cobras não voam, ‘lagartos não tem peçonha’ e sapos não urinam em nossos olhos. Mas saberíamos explicar como essas crenças surgem? Utilizaremos a crença das cobras que bebem leite para demonstrar isso.

Serpentes que mamam é uma crença amplamente difundida em todo o território brasileiro, quase toda a América Latina, parte da Europa e Norte da África (Andreu 2000; Vizotto 2003). As espécies variam de acordo com a região, mas a crença é praticamente a mesma em todas elas. No sudeste do país, a cascavel (Crotalus durissus) é a espécie responsável por tal “fato” (Vizotto 2003). Já na região Nordeste, principalmente no Domínio da Caatinga, a “cobra mamífera” é a Pseudoboa nigra, denominada popularmente cobra-de-leite, muçurana ou cobra-preta (Fernandes-Ferreira et al. 2012).

A crença reza que essas serpentes aproximam-se da mulher em fase de lactação, quando ela está dormindo e amamentando, ocupa o lugar da criança e, atenta para que essa não a perceba, coloca a ponta da cauda em sua boca. Quando a crença é relacionada a P. nigra, o imaginário vai ainda mais além. Contam os populares que, quanto mais leite a cobra-preta ingere, maior será a quantidade de manchas brancas, que aparecem espontaneamente em seu dorso.

Pseudoboa-nigra

Sabe-se que essa crença não possui qualquer embasamento científico. Além do leite não fazer parte de suas dietas, as serpentes, de modo geral, não possuem a enzima lactase, responsável pela digestão da lactose presente no líquido. Além disso, a sucção no úbere materno seria impossível pela ausência do músculo esfíncter bucal. No caso da muçurana, as manchas brancas no dorso são frutos apenas de variação morfológica, comum principalmente em áreas secas do Brasil (Vanzolini et al 1980).

Mas, como uma crença como essa pode ter tão bem difundida em diversas regiões do mundo?

Segundo Vizotto (2003), a origem pode ser explicada, já que o aniquilamento de uma serpente é geralmente realizado através de golpes de pedaços de madeira ou instrumentos agrícolas, dilacerando-a, fazendo com que se extravase um líquido espesso branco, com aspecto de leite coalhado. Esse líquido pode ser fruto do processamento metabólico da digestão do cálcio, proveniente das presas que, ao juntar-se com o restante do material excretado, resulta em dejetos chamados de urato, com coloração que lembra a substância láctea. Outra possível procedência é que, no período reprodutivo, os machos secretam grande quantidade de líquido albuminóide esbranquiçado, que forma parte do líquido seminal. E a última explicação se dá pela presença de ovos nos ovidutos de fêmeas ovígeras, os quais também apresentam substância albuminóide esbranquiçada. No caso da P. nigra, que apresenta coloração bastante diferente quando juvenil (dorso avermelhado e cabeça negra), a observação dessas mudanças de padrão ao longo do tempo por parte de leigos pode promover uma associação errônea com aumento da ingestão de leite.

O caso de hoje nos dá um exemplo de que crenças relacionadas a répteis e anfíbios – bem como para o restante dos outros grupos silvestres – pode ser gerada principalmente pela assimilação que o público leigo realiza quando se depara com caracteres morfológicos, comportamentais e ecológicos, cujas explicações científicas não estão ao seu alcance. Desse modo, ele busca explanações de outro modo, através de sua cultura e história oral. No caso das serpentes, essas crenças geralmente contribuem para uma alta taxa de mortalidade de praticamente todas as espécies. Portanto, iniciativas como educação ambiental em áreas rurais e incentivo à formação de profissionais que possam ser multiplicadores dos ideais de conservação são sempre bem vindas.

Obs.: Parte do texto foi publicada previamente no blogdonurof.wordpress.com, pelo mesmo autor.

  • +Referências Bibliográficas

    Andreu, G.C. 2000. Mytos, Leyendas y Realidades de los Reptiles de Mexico. Ciencia Ergo Sum. 7(3): 286–291.

    Fernandes-Ferreira, H., Cruz, R. L., Borges-Nojosa, D. M., & Alves, R. R. N. (2012). Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus Série Ciências Biológicas11(2), 153-163.

    Vanzolini, P.E., Ramos-Costa, A.M.M. & Vitt, L.J. 1980. Repteis das Caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.

    Vizotto, L.D. 2003. Serpentes: lendas, mitos, superstições e crendices. Plêiade, São Paulo.

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admin

Comentários

2 Comentários

  1. Marliene Vargas Freire

    Encontrei essa cobra em meu quintal gostaria de saber se é peçonhento. Pois nunca tinha visto uma cobra Branca com cabeça preta e 3 manchas pequenas pretas igual a da foto.

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