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Por:
 
Hugo Fernandes-Ferreira
Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB.
Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental.
e
 
Fábio Nascimento
Biólogo, Doutor em Zoologia pela USP, colaborador da Seção de Mastozoologia do Museu de Zoologia da USP.
Professor da Universidade de Mogi das Cruzes.

Na comunidade acadêmica, é bastante comum a prática do policiamento (muitas vezes de forma arrogante) do uso de termos populares em detrimento dos técnico-científicos por parte de muitos de seus membros. Entre alguns biólogos, por exemplo, há uma correção corriqueira sobre o uso do termo “cobra”.

“O correto não é cobra, é serpente. Cobra é nomenclatura para as serpentes do gênero Naja”. Quantas dezenas de vezes já não ouvimos isso? Pois bem, o post de hoje é fruto de conversas entre os dois autores – por sinal, dois mastozoólogos – e de pesquisas avulsas em momentos avulsos, que só aqueles que sofrem de insônia (todos os acadêmicos?) sabem como é. Tentaremos mostrar aqui que essa correção não faz muito sentido do ponto de vista etimológico e histórico.

 

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1) A origem da palavra “cobra “

A palavra “cobra” em português vem do latim “coluber”/”colubra”. Coluber vem do proto-indo-europeu *(s)k(‘)ol-. e também significa “verme”. O Proto-Indo-Europeu deu origem a um monte de línguas, dentre elas as germânicas, que inclui o inglês. Já deu pra perceber que a origem da palavra é bem mais antiga do que qualquer estudo de descrição herpetológica, não é? Mas tem mais. Vejamos.

2) A origem da palavra “serpente”

“Serpente” também vem do latim “serpēns”, que significa “aquele que rasteja”. Assim como a palavras “hérpō” (de onde se origina herpetologia), do grego antigo e “sárpati”, do Indiano Antigo (ambas também significam “aquele que rasteja”). Todas elas tem a mesma origem, a palavra  proto-Indo-européia “*serpe-“.

3) A origem da palavra “naja”

A palavra “naja” vem do Hindi antigo “nāgá, que significa serpente e é originária do Proto-Indo-Europeu “*(s)nēg-o-“, que deu origem à palavra do inglês antigo “snaca”, que no inglês moderno escreve-se como “snake”. Sendo assim, as palavras “naja” e “snake” tem uma mesma origem.

4) A origem da palavra “cobra” na língua inglesa

A palavra “cobra” realmente é utilizada na literatura de língua inglesa para designar alguns ofídios da Família Elapidae, conhecidos também como “najas”, animais ainda hoje símbolos da Índia, país sob domínio da Coroa Britânica até 1950. Entretanto, é importante ressaltar que a Índia, antes do domínio britânico, era de domínio ibérico. A palavra “cobra” já era (e continua sendo) utilizada em Portugal para designar os ofídios de uma maneira geral. Além disso, os portugueses antes mesmo de chegarem à Índia, já sabiam da existência das chamadas “cobras-de-capelo” (é só lembrar que existem najas no Egito e que eram conhecidas desde a Idade Média e até antes disso). Quando viram que em terras hindus também havia “cobras-de-capelo”, assim as denominaram. Essa nomenclatura é uma referência à capacidade desses ofídios em expandirem suas costelas anteriores quando ameaçadas, o que lembra um “capelo”, que tem origem latina e significa “chapéu”. Ou seja, as najas seriam as “cobras-de-chapéu” ou “cobras-de-capuz”.

No entanto, com o advento do domínio britânico em território indiano, as primeiras literaturas de grande alcance mundial envolvendo descrições de répteis da Índia eram descritas em língua inglesa, as quais utilizaram traduções livres das denominações portuguesas (que já estavam disseminadas em bibliografias inclusive) e especificaram o termo “cobra” para as serpentes do gênero Naja.

Obs.: e nessas traduções, o “de-capelo” foi embora sabe-se lá o motivo.

5) E como nasceu essa história de que “cobra” é tecnicamente errado?

Agora vamos às divagações. Não se sabe ao certo, mas essa história de que o correto seria “serpente” e não “cobra” pode ter nascido do estudo de zoólogos brasileiros antigos sobre as bibliografias britânicas, aliado à existência de outro mito ainda bastante corrente: o de que, em 1500, os primeiros navegantes portugueses que aqui desembarcaram acharam que estavam chegando à Índia (sabemos bem hoje que isso não é verdade). A partir dessas premissas, começa a correr a afirmação de que os ofídios brasileiros foram chamados de “cobras” por uma possível associação errada dos portugueses ao achar que se tratavam de ofídios indianos. Por sinal, história bem parecida com aquela de que os nativos brasileiros são chamados de índios por esse motivo e blá, blá, blá.

Conclusão

Como vimos, o nome “cobra” é utilizado para designar os nossos queridos répteis ápodos, de corpo vermiforme e língua bífida há muito tempo. Desde antes dos ingleses encontrarem as temidas najas e desde antes dos nossos patrícios desembarcarem em terras tupiniquins. Se seria válido mudar a linguagem técnica? Não sabemos (e nem é essa a intenção do texto). No entanto, caso um dia alguém corrija você por ter chamado algum ofídio de cobra, não hesite em discutir a correção. Claro, desde que seja de forma educada, com rigor científico e dentro de todas as premissas da ética e do bom convívio profissional, não é mesmo?

P.S. Seguem abaixo comentários muito pertinentes sobre o texto, realizados no Facebook.

Uma excelente curiosidade etimológica, que tu podes colocar no post se quiser, é a modificação S para H entre o latim e o grego: palavras em latim com S, como “semi”, têm equivalentes em grego com H, como “hemi”. O par semi/hemi (parte, pedaço) é bem famoso, mas há outros, e você sem querer mostrou um deles. O verbo rastejar é “serpo” em latim, e “herpo” em grego (esse H é falado, como o h do inglês hat, chapéu). Assim, herpetologia é equivalente a serpetologia (ou serpentologia, se derivarmos do substantivo e não do verbo), e ambas significariam “o estudo daquilo que rasteja”. Outro termo para adicionar lenha à discussão: Víbora, de vipera, que vem de vivus parere, quando se acreditava que essas cobras eram vivíparas. Gerardo Furtado, biólogo, professor, linguista e diretor do biologiaevolutiva.wordpress.com

 Excelente exercício, que contribui objetivamente para diminuir o preconceito linguístico praticado por algumas pessoas que elitizam a ciência e o conhecimento. À guisa de contribuição, informo que perguntei pessoalmente a um amigo indiano com razoável conhecimento de zoologia, qual era o nome dado à naja na Índia na língua hindi. A resposta foi imediata: “côbra” [incluí o acento para mostrar a tonicidade fechada]. Esse nome apenas serve para esse tipo de serpente e as demais são chamadas pela forma genérica que poderia ser transliterada como “sámp”. Gostaria de dizer, também, que as línguas sofrem processos muito dinâmicos de inter-relações, com empréstimos frequentes. Nesse caso, não concordo integralmente com a etimologia coluber para cobra. Note que o próprio étimo latino pode (e deve) ter se originado de outras línguas muito mais antigas, o que faria sentido ao observarmos a semelhança existente entre a palavra latina e a do hindi moderno. Talvez a “cobra” do português seja originada do hindi pelo latim, pensando em um caminho muito – mas muito mesmo – simplista para o caso. Um abraço e parabéns pelo excelente texto!  Fernando Straube, ornitólogo, linguista, consultor do Ministério do Meio Ambiente e sócio-proprietário da Hori Consultoria Ambiental.

Caros Hugo e Fábio. Convém acrescentar ao ótimo texto o emprego (que vem caindo em desuso) da palavra OFÍDIO, incluindo sua etimologia. A palavra “víbora” é usada para vários viperídeos do Velho Mundo, sem fosseta loreal. Mas se nossos crotalíneos continuam sendo considerados Viperidae, não há motivo para não chamarmos genericamente de víboras as nossas jararacas, urutus, surucucus, picos-de-jaca, cascavéis e similares.  Renato Silveira Bérnils, doutor em Zoologia, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Herpetologia.

Nem só no Velho Mundo, Renato Silveira Bérnils, aqui na América do Sul (países hispânicos) chamamos nossos viperídeos de “víboras”! Com referência às “najas” e os portugueses, dizem que quando eles chegaram à India e viram aquelas peculiares serpentes, chamaram-nas de “cobras-de-chapéu” (cobras porque em língua portuguesa = a serpente, e de chapéu pelo peculiar comportamento das mesmas)… eu sempre contei essa historinha, que justifica que em países de língua portuguesa cobra e serpente sejam sinônimos, e que o nome cobra, para o resto do mundo, defina as “najas”, em reconhecimento aos portugueses por seu pioneirismo a respeito do assunto. Este é meu microscópico grão de areia para este excelente artigo! Aníbal Melgarejo, doutor em Patologia, pesquisador e curador da Seção de Herpetologia do Instituto Vital Brazil, consultor do Ministério da Saúde sobre ofidismo.

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