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No mês passado, apresentei aos leitores do herpeto.org os lagartos do gênero Tropidurus, considerados os calangos mais populares do Brasil. Nesta postagem, irei apresentar outro grupo de espécies muito comum no nosso país, os Cnemidophorus.

Antes de apresentá-los, entretanto, gostaria de ressaltar que a nomenclatura popular relativa a este grupo é muito diversa e imprecisa (e.g. tijubina, lagartixa listrada, calanguinho da cauda verde), existindo várias espécies que são tradicionalmente conhecidas por mais de um nome popular e alguns nomes populares que são comumente utilizados para se referir a mais de uma espécie. Por este motivo, optei por adotar a nomenclatura vernacular norte-americana, enquadrando todas as espécies do gênero como ‘lagartos com cauda de chicote’ (Whiptail Lizards) (Figura 1)

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Figura 1. Aspecto geral de um lagarto com cauda de chicote da fauna brasileira.

Estes lagartos pertencem à família Teiidae, que tem grande representatividade na herpetofauna americana, com cerca de 150 espécies formalmente descritas (Uetz & Hošek, 2013). No Brasil, ocorrem 35 espécies de teiídeos, 15 das quais são lagartos com cauda de chicote. Até pouco tempo, todas as espécies brasileiras deste grupo pertenciam ao gênero Cnemidophorus. Contudo, recentemente foi publicada uma nova revisão taxonômica da família Teiidae, na qual foi proposta uma re-estruturação do gênero (Harvey et al., 2012). Tendo por base esta reorganização, as espécies de Cnemidophorus brasileiras estão agora distribuídas em 3 diferentes gêneros: AmeivulaCnemidophorus e Contomastix.

O gênero Ameivula agrupa a maior parte (73%) das espécies previamente pertencentes ao gênero Cnemidophorus. Neste novo grupo, estão várias espécies recém descritas, provenientes do complexo Cnemidophorus ocellifer. Entre elas estão A. jalapensis (Colli et al., 2003) e A. mumbuca (Colli et al., 2009) do Cerrado, A. confusionibus (Arias et al. 2011) e A. pyrrhogularis (Basto da Silva & Ávila-Pires, 2013) da Caatinga, A. abaetensis (Dias et al., 2002) e A. littoralis (Rocha et al. 2000) que habitam as Restingas do leste do Brasil e, inclusive, A. nativo (Rocha et al. 1997) uma espécie partenogenética (Menezes et al. 2004), provavelmente originada da hibridização entre A. ocellifera (Figura 2) e A. abaetensis (Dias et al., 2002).

 

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Figura 2. Ameivula ocellifera em zona costeira no estado do Ceará.

As únicas espécies que ocorrem no Brasil e permanecem no gênero Cnemidophorus são C. cryptus e C. lemmniscatus (Figura 3), ambas com ocorrência na Amazônia brasileira (Avila-Pires, 1995). No outro extremo geográfico, na região Sul do Brasil, ocorrem os Contomastix lacertoides Contomastix vacariensis, este último endêmico dos campos de altitude no planalto das Araucárias (Feltrim & Lema, 2000).

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Figura 3. Cnemidophorus lemniscatus em clareira florestal no estado do Amazonas.

Embora a divisão do gênero apresentada nesta postagem siga a última revisão taxonômica específica de Teiidae (Harvey et al., 2012), há um trabalho ainda mais recente sobre a filogenia geral de Squamata (Pyron et al., 2013) no qual os autores sugerem o uso do arranjo taxonômico tradicional de Teiidae (que implica a manutenção da configuração prévia de Cnemidophorus). Apesar das propostas contraditórias, o que parece concenso é que as relações filogenéticas de Teiidae permanecem insuficientemente compreendidas e, consequentemente, pesquisas taxonômicas adicionais são esperadas para o futuro.

Portanto, para os fascinados por lagartos como eu, simbora calangar !!!

  • +Referências Bibliográficas

    Arias, F., Carvalho, C. M., Rodrigues, M. T. & Zaher, H. 2011. Two new species of Cnemidophorus (Squamata: Teiidae) from the Caatinga, Northwest Brazil. Zootaxa 2787: 37-54.

    Avila-Pires, T.C.S. 1995. Lizards of Brazilian Amazonia (Reptilia: Squamata). Zoologische Verhandelingen, 299: 1-706.

    Basto da Silva, M. & Ávila-Pires, T. C. S. 2013. The genus Cnemidophorus (Squamata: Teiidae) in State of Piauí, northeastern Brazil, with description of a new species. Zootaxa 3681: 455-477.

    Colli, G. R., Caldwell, J. P., Costa, G. C., Gainsbury, A. M., Garda, A. A., Mesquita, D. O., Filho, C. M. M. R., Soares, A. H. B., Silva, V. N., Valdujo, P. H., Vieira, G. H. C., Vitt, L. J., Werneck, F. P., Wiederhecker, H. C. & Zatz, M. G. 2003. A new species of Cnemidophorus (Squamata, Teiidae) from the Cerrado biome in central Brazil. Occasional Papers from Oklahoma Museum of Natural History, 14: 1-14.

    Colli, G. R., Giugliano, L. G., Mesquita, D. O. & França, F. G. R. 2009. A new species of Cnemidophorus from the Jalapão region, in the central Brazilian Cerrado. Herpetologica, 65: 311-327.

    Dias, J. E. R., Rocha, C. F. D. & Vrcibradic, D. 2002. New Cnemidophorus (Squamata: Teiidae) from Bahia State, northeastern Brazil. Copeia, 2002 :928-937.

    Feltrim, A. C. & Lema, T. 2000. Uma nova espécie de Cnemidophorus Wagler, 1830 do estado do Rio Grande do sul Brasil (Sauria, Teiidae). Biociências, 8: 103-114.

    Harvey, M. B.; Ugueto, G. N. & Gutberlet Jr, R. L. 2012. Review of teiid morphology with a revised taxonomy and phylogeny of the Teiidae (Lepidosauria: Squamata). Zootaxa 3459: 1-156.

    Menezes, V. A., Rocha, C. F. D. & Dutra, G. F. 2004. Reproductive ecology of the parthenogenetic whiptail lizard Cnemidophorus nativo in a Brazilian Restinga habitat. Journal of Herpetology, 38:280-282.

    Pyron, R. A., Burbrink, F. T. & Wiens, J. J. 2013. A phylogeny and revised classification of Squamata, including 4161 species of lizards and snakes. BMC Evolutionary Biology 13: 93.

    Rocha, C. F. D, Bergallo, H. G., Peccinini-Seale, D. 1997. Evidence of an unisexual population of the Brazilian whiptail lizard genus Cnemidophorus (Teiidae), with description of a new species. Herpetologica 53: 374-382.

    Rocha, C. F. D., Araújo, A. F. B., Vrcibradic, D. & Costa, E. M. M. 2000. New Cnemidophorus (Squamata: Teiidae) from coastal Rio de Janeiro State, Southeastern Brazil. Copeia 2000 (2): 501-509

    Uetz, P. & Hošek, J. (eds.). 2013. The Reptile Database. Disponível em: http://www.reptile-database.org.

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Daniel Passos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre e doutorando em Ecologia e Evolução pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Comentários

2 Comentários

  1. Elis Oliveira

    Daniel sabe me dar uma dica do que diferencia um C. cryptus de C. lemmniscatus???

    Responder
    • Daniel Passos

      Cara Elis,

      Sua pergunta é interessante tanto quanto difícil de responder (ainda mais por mim que não sou especialista neste grupo). De fato, conversando com colegas especialistas, a diagnose destas espécies de Cnemidophorus do grupo lemniscatus é realmente complicada. Por este motivo, vou te repassar por e-mail alguns artigos para que você estude e tire suas próprias conclusões.

      Espero ter ajudado!

      Responder

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