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Autores:
         Hugo Fernandes-Ferreira. Biólogo, Doutorando em Zoologia pela UFPB. Sócio-proprietário da Ophian Consultoria Ambiental e Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.
          Vitor de Q. Piacentini. Biólogo, Doutor em Zoologia pela USP. Diretor do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) e blogger do ornitologo.wordpress.com.

Nos últimos dias, a campanha #somostodosmacacos suscitou inúmeras e polêmicas discussões em todo o mundo, referente ao racismo cometido contra o jogador Daniel Alves, do Barcelona, que se deparou com uma banana lançada por torcedores perto dele em uma partida na Espanha.

Em paralelo, houve discussões sobre a questão filogenética e etimológica sobre realmente sermos todos macacos (ou primatas, que seja). Sim, realmente somos.

Mas toda essa história nos remeteu a um outro fato interessante envolvendo a Herpetologia e a Ornitologia. Adiantando… O fato é que ou os répteis não existem ou todas as aves são répteis. Não entendeu? Vejamos então.

Eu, você, passarinhos, tartarugas, cobras, tuataras, jacarés e lagartos estamos num grupo chamado de Amniota. A principal característica dessa turma foi a conquista definitiva da independência da água para fins reprodutivos, graças principalmente à evolução do ovo amniótico. Ou seja, dentre os vertebrados, isso inclui todo mundo menos os peixes e anfíbios.

Conclusão número 1: Considerando que Herpetologia é o estudo de répteis e anfíbios, já vimos que, pelo conceito biológico e evolutivo, não faria sentido juntar esses grupos em um só escopo de pesquisa. Mas isso aconteceu, já que, historicamente, os métodos de coleta e estudo para os dois grupos são muito parecidos.

A outra questão é que eu, você e os demais mamíferos estamos separados dos demais animais em uma linhagem chamada Synapsida, porque temos como condição ancestral somente uma abertura no osso temporal do crânio, enquanto o restante (ou pelo menos seus ancestrais) possuem os ossos tabular e supratemporal ausentes ou muito pequenos e são chamados de Sauropsida. Você pode achar estranho o fato de apenas buraquinhos no crânio separarem animais em grupos tão distintos, mas, acredite, essas fossas craniais são muito importantes para uma série de caracteres morfológicos como inserção de músculos, articulação de ossos e desenvolvimento cerebral.

Então, até aqui, o que precisamos entender é que mamíferos (Synapsida) estão em um grupo separado do que chamamos popularmente de aves e répteis (Sauropsida).  Agora, vamos estudar somente os Sauropsida.

Olhe bem para o cladograma abaixo (para melhor resolução, clique na figura). Note que esse táxon se divide em dois grupos: Diapsida, que inclui animais com duas aberturas temporais (aves, lagartos, tuataras, serpentes e jacarés) e Anapsida, que abrange animais sem essas aberturas (todos os quelônios).

Somostodosaves

Conclusão número 2: Aprendemos desde cedo que répteis são os vertebrados terrestres escamados (serpentes, lagartos, tuataras), os crocodilianos (jacarés, crocodilos e gaviais) e os quelônios (tartarugas, cágados e jabutis), correto? Pois bem, biologicamente, essa definição está “errada”. Se seguirmos à risca uma definição biológica baseada em grupos “naturais”, não seria adequado juntar todo mundo no mesmo barco. As tartarugas representam uma linhagem evolutiva completamente diferente e muito mais antiga do que o restante desses animais, além de terem morfologia bastante divergente também. Sabemos também, por fósseis, que já existiram várias linhagens evolutivamente muito mais próximas dos demais répteis do que as tartarugas.

A figura acima também nos mostra o que seria mais surpreendente para a maioria do público leigo. Aves e crocodilianos são “parentes próximos”. E é verdade. Eles fazem parte de um grupo chamado Archosauria, pois ambos possuem uma fenestra anterior à órbita do olho como condição ancestral. Sabe quem mais fazia parte desse grupo? Os dinossauros. Por isso é que você já deve ter ouvido falar que galinhas são dinossauros vivos.

Conclusão número 3: a única forma de aplicar o termo “réptil” de forma biologicamente correta seria reunir todos eles em um conjunto só (grupo monofilético, ou seja, com um ancestral comum exclusivo). E o único que envolve tartarugas, jacarés, cobras e lagartos seria o dos Sauropsida, que também envolve as aves. Se excluirmos as aves desse conceito e incluirmos as tartarugas (como todo mundo faz), o nome “réptil” representaria um grupo parafilético, ou seja, que consiste na reunião de táxons de vários grupos distintos, que não compartilham um ancestral diretamente comum. E os grupos parafiléticos são desprezados em estudos evolucionistas. Portanto, aves são répteis. Ou então, répteis (sem aves) não são um grupo natural.

Mas não se preocupe, você pode continuar reunindo na palavra “réptil” os animais que você aprendeu desde cedo como tal (serpentes, lagartos, crocodilianos e quelônios). Mesmo porque, é inclusive um termo utilizado informal e formalmente pelos cientistas. Obviamente, toda essa discussão foi apenas para que você mergulhasse um pouco mais na complexidade dos conceitos evolutivos e também nos paradoxos entre Ciência e Sociedade. E se algum ornitólogo falar que também é herpetólogo, não se surpreenda. Ele estará correto!

E se dissermos agora que os répteis deveriam ser chamados de aves? Confundiu tudo, né? Mas vamos lá.

É possível, em verdade, nos aprofundarmos muito mais nessa questão filogenética e de grupos naturais. Uma vez que todos os organismos vivos possuem como código genético uma mesma estrutura de DNA, construída com as mesmas moléculas, acredita-se que toda a vida neste planeta surgiu de um único ancestral primordial. E que, ao longo da evolução, as linhagens de organismos foram ramificando sucessivamente, tal qual os galhos de árvore. Aliás, o uso metafórico de árvore é tão útil que não foi à toa que Darwin sugeriu originalmente uma árvore da vida! Podemos, frente a uma árvore, nos perguntar se duas folhas quaisquer estão no mesmo galho. A resposta vai depender do que consideramos “um galho”. Nos cladogramas filogenéticos ocorre a mesma coisa: dizer que dois grupos de organismos pertencem a um mesmo grupo natural vai depender de onde fizermos o corte do galho. O ponto central é que não dá pra reunirmos apenas parte das folhas de um galho excluindo algum ramo que cresceu posterior à nossa linha de corte.

#somostodosmacacos é uma hashtag evolutivamente correta. Mas igualmente podemos pensar em #somostodoshominídeos (fazendo um corte mais exclusivo), #somostodosprimatas (num corte mais inclusivo, abarcando lêmures, társios, etc.), #somostodosmamíferos (ainda mais inclusivo) e – pasmem – podemos pensar até em #somostodospeixes! Sim, somos mesmo! Ou melhor, depende da definição de “peixe”. Similar ao exemplo acima dos répteis, também os peixes, tal qual os definimos popularmente, são um grupo artificial formado por várias linhagens independentes e que, dentro do raciocínio de galhos/ancestrais comuns, só podem ser reunidos num grupo natural se incluirmos todos os demais vertebrados – incluindo nós mesmos! [ver também este outro texto aqui] Pois é, aquele salmão do sushi evolutivamente tem mais em comum com um beija-flor ou um rato (ou nós) do que com o cação da moqueca ao lado.

Por fim, uma nota nomenclatural: na Zoologia, a prioridade entre dois nomes aplicáveis a um táxon (seja espécie, gênero ou qualquer táxon superior) é dada pela data de criação do nome. O nome mais antigo tem prioridade. Assim, na hora de “traduzir” uma filogenia para a nomenclatura zoológica, não importa se o nome AAA é baseado em organismos de um clado mais exclusivo (ou seja, “dentro”) que compõe um clado maior que inclui organismos nos quais se baseia o nome BBB. Se o nome AAA é mais antigo, é ele que deve ser usado. E então voltamos às aves. Existem aves e Aves, e são coisas diferentes! Aves, de maneira geral, é o termo corriqueiro, popular, que usamos pros animais cobertos de penas. Mas existe o termo científico Aves, que é o nome de uma classe (táxon) criada por Linnaeus em 1758. Nessa mesma obra, Linnaeus também cria o termo Reptilia (do qual deriva a palavra répteis). Mas Reptilia originalmente não era uma classe, e sim uma ordem dentro da classe Amphibia! Portanto “Aves”, por ter sido aplicado originalmente num nível hierárquico maior, teria prioridade (princípio do artigo 24.1 do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica). Ou seja, numa classificação que considere os “répteis” e as aves como um mesmo táxon (dentro do sistema lineano),  o nome deve ser Aves! Então mesmo que o passarinho do título deste texto tenha dito #somostodosrepteis, do ponto de vista nomenclatural  os répteis é que precisariam dizer #somostodosAves!

Herpeto.org, um site de anfíbios e répteis… Ou seja, de aves… Ou seja, de peixes.

Post scriptum: Comentários de especialistas no Facebook.

Bacana o texto! Parabéns aos autores.Só uma coisa: o ICZN não se aplica a Classes, de forma que não há oficialmente prioridade de Aves sobre Reptilia. Vide trecho do abstract de Dubois & Bour (2010; Bonn zoological Bulletin 57 (2): [149–171]) sobre onome “Testudines”: “The Code only regulates the scientific names or nomina of zoological taxa from the rank subspecies to the rank superfamily, but not those of taxa at ranks above the latter (class-series nomina). It is shown here that its current Rules are somewhat ambiguous regarding the availability of family-series nomina and the distinction between the latter and class-series nomina, and it is again suggested that it should be improved in this respect. It should cover the whole nomenclatural hierarchy in zoology, which requires to expand it in order to incorporate Rules for the nomenclature of higher taxa. […]” Inclusive, é por não possuir essa regra, que existe um problema com relação ao nome da ordem das tartarugas:”As for the order of turtles, establishing the valid nomen of this taxon and of its superordinate taxa under the Rules proposed by Dubois (2006a) is beyond the scope of the present paper, but it is shown here that neither TESTUDINES Linnaeus, 1758, nor TESTUDINATA Klein in Behn, 1760, nor TESTUDINES Batsch, 1788, nor CHELONII Brongniart, 1800a, nor TESTUDINATA Oppel, 1811b apply to this taxon. As long as the Code does not provide formal Rules for the nomenclature of class series taxa, the higher nomenclature of turtles (as well as that of all other zoological groups) will remain a matter of personal or collective tastes, opinions and arbitrary decisions of zootaxonomists. At any rate, whatever Rules or guidelines are followed, it is impossible and unacceptable under any nomenclatural philosophy to accept that the nomen TESTUDINES Batsch, 1788 could be available both for the order of turtles and for the family including the genus Testudo Linnaeus, 1758. 

Henrique Costa, herpetólogo, editor da Revista Check List e redator da Ciência Hoje para as Crianças.

Já apresentei isso há alguns anos atrás em um post do Facebook. E cumprimento os amigos Hugo Fernandes-Ferreira e Vitor de Q. Piacentini por terem usado as palavras de uma maneira tão agradável e muito completa. Apenas acho que a questão nomenclatural não merecia apenas uma “nota”. Ela é, pelo contrário, definitiva! Isso porque dependemos de nomes para a nossa comunicação e as regras da nomenclatura são essenciais em qualquer estudo de parentesco. O que vejo há muitos anos é um descompromisso com o obrigatório vínculo entre parentesco (e aqui critico diretamente muitos estudos de filogenia) e sistemática (classificação e nomenclatura). Pesquisadores concluem sobre parentescos mas não pesquisam sinonímias e muitas vezes desconhecem o Código! Para mim – como ornitólogo – não faz diferença alguma que meu grupo de trabalho sejam Répteis (sensu lato) ou Aves (sensu lato ou stricto). Precisamos, isso sim, reconhecer que não basta estudarmos o parentesco se não chegamos a um consenso sobre as denominações. 

Fernando Straube, ornitólogo, sócio-proprietário da Hori Consultoria Ambiental e consultor do Ministério do Meio Ambiente para aves ameaçadas.

Hugo Fernandes-Ferreira

Biólogo (CRBio 67.339/05), Mestre e Doutorando em Zoologia pela UFPB.
Sócio-diretor da Ophian Consultoria Ambiental. Editor Assistente da Revista Gaia Scientia.

Comentários

3 Comentários

  1. André Grassi Corrêa

    Olá meus queridos, parabéns pelo prazeroso texto.

    Sempre bom uma boa literatura.

    Responder
  2. Muito interessante o texto, bem como o Post scriptum!
    Sou estudante do segundo ano de ciências biológicas. Tenho a opinião que uma abordagem tão bacana da evolução deva ser divulgada em meios impressos, até mesmo nas universidades, não estudei evolução, cladística ou táxons na faculdade ainda, mas esse texto nos dá uma visão “lato” e “strictum” que ao leigo no assunto evolução, filogenia, clados etc… contudo devemos estudar com afinco a biologia afim de seguir essa linha tão bacana traçada pelos precursores das Ciências Biológicas.
    Parabéns pelo ótimo texto!
    Lucas
    #Biologia

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